Existe um viés que qualquer pessoa que já escreveu algo conhece: o próprio texto sempre parece certo. A gente lê o que quis escrever, não o que escreveu. Com código é igual. E com modelos de linguagem, o efeito é ainda mais forte.
Um agente que acabou de escrever uma função vai, com grande convicção, explicar por que ela está correta. Pedir a ele que revise o próprio trabalho é pedir que confirme o que já acredita.
Dois agentes, dois objetivos
Na Kabran, escrever e revisar são papéis separados, com instruções diferentes.
O agente que executa recebe a issue e tem um objetivo: entregar o que foi pedido, pela menor mudança que resolve, dentro dos padrões da casa. Ele termina abrindo um merge request.
O agente que revisa recebe só o merge request e a issue. Ele não viu o raciocínio de quem escreveu, não sabe quais atalhos foram considerados, não tem apego a nada. O objetivo dele é outro: encontrar o que impede aquilo de entrar.
O revisor não está ali para concordar. Está ali para procurar o que ninguém viu.
A mesma régua dos dois lados
A revisão só é justa se quem escreve e quem revisa usam o mesmo critério. Por isso existe uma régua única, lida pelos dois. Ela diz, entre outras coisas, o que bloqueia uma entrega:
- critério de aceite ausente ou entregue pela metade;
- comportamento quebrado ou regressão;
- falha de segurança, incluindo segredo ou valor de ambiente cravado no código;
- tela abaixo do piso de acessibilidade.
E diz, com a mesma clareza, o que não bloqueia: sugestão de nome melhor, refatoração desejável, otimização que não é crítica. Uma revisão que reprova por gosto é tão ruim quanto uma que aprova tudo.
O que acontece quando reprova
O parecer volta com o motivo escrito e ligado ao trecho exato. O trabalho retorna para correção, e a nova versão passa pela revisão de novo — do zero, sem “já tinha visto isso antes”.
Se o mesmo tipo de problema aparece várias vezes, ele deixa de ser um problema do código e vira um problema do padrão. A pergunta passa a ser: que instrução faltou para isso não acontecer? E a resposta vai para os trilhos, não para a memória de alguém.
Revisão não é desconfiança
Separar quem escreve de quem revisa não é sinal de que a IA é ruim. É o mesmo princípio que qualquer equipe séria de engenharia aplica entre pessoas. Ninguém é bom o suficiente para ser o único par de olhos sobre o próprio trabalho.
A diferença é que, numa fábrica que nasceu com a IA, dá para aplicar esse princípio em todas as entregas, todos os dias, sem que ele vire gargalo.